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Qualquer pessoa sabia não haver justificação para a vida de luxo de Sócrates em Paris. Menos ele…

Durante muitos anos, eu fiz parte do grupo dos “obcecados”.

De cada vez que falava em José Sócrates num texto – e falei muitas vezes –, as pessoas suspiravam, os leitores criticavam, os amigos gozavam, os colegas bocejavam.

Diziam: lá vem ele outra vez, mas porquê esta obsessão?, Sócrates já nem sequer está no governo, este tipo nunca lhe perdoou tê-lo processado, a fulanização em política é uma forma de populismo.

E durante muitos anos, eu tentei explicar pacientemente, persistentemente, teimosamente, que José Sócrates era diferente, que era único, que não se podia comparar a ninguém, que ele era a pior coisa que nos tinha acontecido desde o PREC. Porque se é certo que o ex-primeiro-ministro teve muitos opositores, boa parte deles, de Daniel Oliveira a Pacheco Pereira, sempre se recusaram a ver em Sócrates o que não se via em nenhum outro – por muitas falhas que lhe fossem apontadas, ele era tratado como mais um, os problemas eram menos dele do que do “sistema”, os seus erros e as suas mentiras, diziam os grandes intelectuais anti-fulanização, eram partilhados por muitos mais.

Com o correr do tempo, os “obcecados” foram diminuindo. Após o fim da era socrática, as televisões afastaram-se, os jornais respeitáveis viraram costas, e os colunistas sérios puseram ar de enjoado. Restou o Correio da Manhã, o Sol, em parte a Sábado, recorrentemente acusados de obsessão persecutória, quando qualquer pessoa que soubesse fazer contas de somar sabia não haver qualquer justificação possível para a vida que José Sócrates levava em Paris.

Mas parece que neste respeitoso Portugal insistir em fazer perguntas óbvias passa por má educação. Perguntava-se uma vez e Sócrates não respondia. Perguntava-se duas vezes e Sócrates não respondia. E quando se perguntava a terceira vez já se estava a criticar o jornal por insistir na pergunta em vez de se criticar Sócrates por recusar a resposta.

Nem agora, após José Sócrates ter sido detido para interrogatório, essa sede de generalização parece saciada. Ele é preso e avançam de imediato as profecias apocalípticas: é o fim do regime que se aproxima; é a política, como um todo, que é atingida.

Não, senhores, não. O regime tem imensas falhas e a política infindáveis problemas, mas Passos Coelho tem toda a razão quando afirma que nem toda a gente é igual. E José Sócrates, graças a Deus, não é igual a ninguém. Ele é o special one da indistinção entre verdade e mentira, pela simples razão de que nunca viu diferença entre uma e outra. A sua detenção não é o fim do regime. Pelo contrário: foi durante o seu consulado que o regime esteve quase morto. O que está agora a acontecer é o oposto disso: é o regime a funcionar outra vez.

E a funcionar apesar de todas aqueles que, confundindo mais uma vez as prioridades, estão muito preocupados com a detenção de Sócrates ao sair de um avião ou por a SIC ter filmado um carro a ir-se embora do aeroporto.
Ai, meu Deus, que os jornalistas foram informados!

Eu, de facto, preferia que os jornalistas não tivessem sido informados. Mas preferia muito mais que José Sócrates não tivesse sido – e a verdade é que ele foi escandalosamente informado e protegido pela justiça durante anos a fio.
Num país onde quase não há busca sensível que seja feita sem que os visados estejam prevenidos, eu diria que há fugas de informação bem mais perniciosas do que aquelas que beneficiam a comunicação social. Andaram dez anos a fazer-nos passar por parvos. Se calhar já chega.

Como todos já devem ter reparado, em Portugal existe a cultura de seita em relação aos partidos, as pessoas defendem o seu partido cegamente mesmo quando este, governa mal ou lesa o país de forma consciente.
Não se realiza uma análise isenta, critica e justa do desempenho dos partidos e do que eles fazem pelo país ou contra o país, as pessoas defendem-nos cegamente há 40 anos como se fosse o seu clube de futebol ou o seu bairro, mesmo quando jogam baixo ou lesam o interesse nacional. Os resultados arrasadores estão bem à vista, mas pior cego é aquele que não quer ver.

Uma cegueira dolorosamente cara para os portugueses e para o país, porque os partidos perceberam que podem abusar até onde quiserem pois podem contar com os seus fanáticos defensores, que jamais os condenam. Até os apoiam!!!

Portanto ao longo dos anos os partidos sentiram-se seguros para abusar cada vez mais, para aperfeiçoar as técnicas, criar as leis que protegem. Após testarem a mansidão, a paciência e a tolerância dos portugueses atingiu-se o auge da corrupção entre 2000 a 2010 Portugal, foi o país do mundo, que mais agravou a corrupção e desceu 10 lugares no rank (TI) internacional dos corruptos.

Os portugueses preferem defender ferozmente um corrupto que compra um novo mercedes de 200 mil euros, do que defender os interesses da própria família, muitas vezes em dificuldades.

Os políticos perceberam que não há limites, a justiça foi capturada e os eleitores adoram-nos, são intocáveis e é nesta impunidade que se promove e incentiva a corrupção.

Se os portugueses trocassem a lealdade cega pelo bem dos partidos por uma salutar lealdade ao bem comum, ao país e aos seus concidadãos, puniriam os oportunistas inimigos do bem nacional, que são os partidos. E assim finalmente os partidos perceberiam que tinham que ser amigos do povo e do país, para poderem governar e ter o privilégio de gerir os milhões dos nossos impostos. Porque se os portugueses desempenhassem a sua função e obrigação, e fossem os leais defensores da pátria, não permitiram os actuais abusos e nem defenderiam mais os inimigos da pátria.

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