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Portugal está a arder: “Alguém que perceba de combate a incêndios tem de nos vir ajudar”

Passou o primeiro mês. Quase tão impressionante como a nossa capacidade de ainda nos chocarmos com o grande fogo do Pinhal Interior, é a incapacidade de conseguir respostas claras a perguntas simples sobre uma tragédia que matou 64 pessoas. Já passámos a idade da inocência, quando o Presidente da República dizia que “não era possível fazer mais” e o diretor-nacional da Polícia Judiciária apontava para a árvore onde caiu o raio fatal que ninguém viu, ninguém ouviu e nenhum satélite ou computador registou. Hoje não há dúvidas de que era possível ter-se feito muito mais, muito melhor. Até Marcelo já admitiu, em declarações à SIC, que o Estado falhou. As fragilidades ficaram à vista.

Já não há dúvidas sobre as falhas do SIRESP, ou sobre a fragilidade da estrutura operacional da Proteção Civil, cujos comandos distritais foram mudados dois meses antes dos fogos. O facto é que boa parte do que se sabe, só se sabe olhando para lá da cortina de fumo das explicações oficiais. O que se sabe não chega. É de uma fragilidade inadmissível.

Ontem à noite houve telejornais em direto de Pedrógão Grande, e lá ao longe via-se o fumo de novos incêndios, agora em Oleiros. E em Mangualde. E na Guarda. E em Alijó. E em Vila Nova de Foz Côa. Ao final da tarde de ontem, o presidente da câmara de Alijó afirmava que o fogo estava fora de controlo e acrescentou um apelo que mostra bem o que se passa no terreno: “Alguém que perceba de combate a incêndios tem de nos vir ajudar”. Alijó declarou o estado de emergência municipal. Mangualde também. Casas, carros, animais, plantações e florestas foram devastados. A A25 chegou a estar cortada, mas esta manhã todas as vias cortadas estavam reabertas. No Público, Manuel Carvalho explica por que razão “o Governo não vai poder desvalorizar o incêndio de Alijó com a mesma negligência com que menorizou o assalto em Tancos“.

O SIRESP, já se sabe, voltou a falhar– ou, na linguagem acética dos burocratas, “foram registadas algumas intermitências pontuais”. António Costa, que foge de discutir o SIRESP como o diabo da cruz, voltou a apontar o dedo à PT/Altice, agora sem a nomear. É oficial: a empresa que era a festa do regime passou a besta do regime. “Fragilidade inadmissível”, disse o primeiro-ministro, sobre a rede da operadora de que deixou de ser cliente. Costa, que sabe o que fez quando era Ministro da Administração Interna, também sabe que a melhor defesa é o ataque: “Numa zona de grande densidade florestal, onde há elevado risco de incêndio, o sistema de comunicações de uma determinada companhia, que não vou dizer o nome para não me criticarem, assentar em cabos aéreos, e nessa rede circular não só a comunicação normal como a de emergência, expõe obviamente essa rede a uma fragilidade inadmissível”, disse. Não há como discordar. Infelizmente, esta evidência não ocorreu ao ministro que em 2006 adjudicou uma rede de comunicações de emergência a um consórcio que era servido por esta “companhia” que em zonas de “grande densidade florestal” estava dependente de “cabos aéreos”…

O PSD exige novas explicações da ministra Constança Urbano de Sousa, o CDS voltou a acusar o Governo de incompetência e a reclamar a demissão da MAI. No troco, Costa devolveu responsabilidades à direita, lembrando que “não foi, com certeza, agora que foram descobertos problemas.”

Um mês depois, o Governo entregou em Bruxelas o pedido de apoio do Fundo Europeu de Solidariedade. O Jornal de Notícias garante que as falhas nas comunicações só serão revistas em setembro. Entretanto, o país arde. No momento em que foi enviado este Curto, quatro fogos motivavam mais preocupação: Alijó, Mangualde, Foz Côa e Guarda.

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