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Médico do INEM alegou estar indisposto para não transportar um doente. Afinal estava numa tourada.

O serviço público e os abnegados servidores públicos no seu melhor.

O caso é de 29 de outubro de 2017. Pouco depois das 17h30, o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) recebe um pedido do Hospital de Évora: no serviço de urgência está um homem de 74 anos, com um traumatismo craniano e hemorragia cerebral, que precisa de transporte para Lisboa. À espera dele estava já a equipa de neurocirurgia do Hospital de S. José.

A gravidade do quadro clínico e a necessidade de uma intervenção rápida levam o CODU a accionar o helicóptero do INEM estacionado em Évora como meio de transporte, mas isso acabaria por não acontecer, apesar de estarem garantidas todas as condições para o voo, segundo o comandante do aparelho. Quase uma hora depois, o doente seria transportado de ambulância para Lisboa. Porquê? Porque o médico de serviço ao helicóptero alegou que estava com uma gastroenterite e sentia-se tão mal que pediu para não fazer o trabalho. O problema é que, à mesma hora, estaria numa tourada na arena de Évora — e foi notícia por ter socorrido o diretor da corrida.

A denúncia é feita numa carta anónima, assinada apenas por “um grupo de médicos do Hospital de Évora preocupados” e enviada ao INEM, ao Ministério da Saúde, ao Hospital de Évora e à Ordem dos Médicos há quase um ano. O INEM abriu um inquérito e decidiu cessar o contrato de prestação de serviços com o clínico. Ao Observador, o médico em questão nega todas as acusações. Admite que passou na arena de Évora, mas de forma muito rápida e não como médico da corrida. E garante que nunca lhe foi feito qualquer pedido de transporte.

“Se puderem fazer isso por terra, eu agradeço-lhe muito”
De serviço ao helicóptero, nesse dia, estava António Peças, cirurgião também de Évora, que presta serviço ao INEM nos transportes aéreos como tarefeiro. Segundo os registos das chamadas a que o Observador teve acesso, foi com ele que o CODU falou às 17h36 — quatro minutos depois do pedido do Hospital de Évora. Assim que atende a chamada, percebe-se que o médico não estará bem. Com alguma dificuldade, explica que está indisposto, descrevendo vários sintomas. “Estou aqui um bocadinho enrascado”, diz.

CODU: Há aqui um pedido de Évora para S. José…
António Peças: Eh pá… é o quê?
CODU: É um hematoma subdural.
António Peças: Oh Dr. Marcão [o operador do CODU], é uma coisa… eu estou aqui em casa, vim aqui… acho que isto é uma gastroenterite. Das duas uma, vou aqui ver… ou vou ver se isto me passa aqui um bocado, ou se vou ao hospital que é para eles me fazerem lá uma medicação. (…) Se isso pudesse ser de carro [ambulância], eu agradeço. Se não puder ser, eles têm que aguardar isso um bocadinho, que eu estou… estou aqui um bocadinho aflito.
CODU: OK. Está.
António Peças: Obrigado, Dr. Oiça lá uma coisa: eu vou ao hospital que é para ver se me fazem lá uma medicação, mas se eles puderem fazer por terra [de ambulância], eu agradeço. Depois eu digo-lhe alguma coisa depois de fazer a medicação lá no hospital. Está bem?

A informação é depois repetida pelo operador do CODU, também ele médico, ao Hospital de Évora. A médica que o atende, Ana Raquel Martins, colega de António Peças no serviço de cirurgia, parece surpreendida: “Está-me a dizer que o Dr. António Peças está doente, é isso?”, questiona. “Está bem, está bem…”, conclui.

Aquilo que eu combinei com ele, ele vai ao hospital a ver se consegue fazer terapêutica e se ele consegue minimamente estabilizar para ficar em condições de fazer o transporte”, diz o operador do CODU, Francisco Marcão.

Também isso não terá acontecido. Quarenta minutos depois, a mesma cirurgiã liga de novo para o CODU a perguntar pelo helicóptero — e pelo médico:

CODU: É por causa do heli, não é, doutora?
Hospital de Évora: Sim, mas é que o Dr. António Peças ainda não veio ao hospital! Disseram que ele se estava a dirigir para cá porque não estava bem… não sei…
CODU: Doutora, aguarde um bocadinho.

Algum tempo depois, vem a decisão.

CODU: Doutora, eu recebi aqui a indicação que vamos enviar uma ambulância a esta situação.
Hospital de Évora: Está bem, vou então preparar tudo para fazer o transporte.

Às 18h21 é acionada uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Évora.

Fonte: Observador

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