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Escândalos nas instituições de solidariedade

Cândida Rodrigues Dias tinha já 101 anos quando se deslocou mais uma vez ao notário para alterar o testamento. Era um acto processual que conhecia bem desde que iniciou a sua carreira como notária, em 1934, que a levou mesmo a exercer o cargo de directora-geral dos Registos e Notariado, entre 1977 e 1981.

No dia 20 de Março de 2013, três meses antes de morrer sem deixar descendentes, formalizou então a última vontade para a distribuição dos seus bens. Segundo o documento, a que a SÁBADO teve acesso, começou por um conjunto de jóias com valor afectivo, que deixou à secção de ourivesaria do Museu de Arte Antiga: “Um anel de ouro cinzelado com um brilhante muito grande, que pertenceu a seu pai e um par de brincos de brilhantes, que foram de sua mãe, da Ourivesaria Leitão, os quais ainda se encontram dentro da caixa da dita ourivesaria, tal e qual como foram adquiridos; duas pulseiras de prata com pérolas, obras de ourivesaria japonesa, duas jarras de prata assinadas e dois talheres – um garfo e uma colher – também de prata e trabalho japonês.”

Ao Santuário de Fátima, entregou “os seus brincos de brilhantes que os testamenteiros bem conhecem”.

E à “Cáritas Portuguesa – Diocese de Lisboa” legou o retrato a óleo da irmã de Cândida (executado pelo pintor de Antuérpia Paul Baudry), o jazigo que possui no cemitério, todo o dinheiro que tivesse em casa ou nas contas em dois bancos nacionais, e ainda a moradia onde vivia, nos arredores de Lisboa. A SÁBADO não conhece o valor global, mas sabe que estão em causa milhões de euros.

Como encargos, a Cáritas teria de cuidar do jazigo, conservar o retrato da irmã da testadora “com o mesmo enquadramento” em que se encontrasse à data da sua morte, e mandar celebrar missas mensais por Cândida Rodrigues Dias, bem como pelos seus falecidos pais, irmã e cunhado.

Após a morte, duas questões foram suscitadas. Uma é meramente formal, mas não irrelevante: “Cáritas Portuguesa – Diocese de Lisboa” parece uma formulação simples, mas é na verdade dúbia, uma vez que existe uma “Cáritas Portuguesa”, que é tutelada pela Conferência Episcopal Portuguesa, e uma “Cáritas Diocesana de Lisboa”, que funciona na órbita do Patriarcado. Um representante dos bispos, o frei Francisco Sales, que estava na altura com as Obras Sociais da Conferência Episcopal Portuguesa, e um representante do Patriarcado, o ecónomo cónego Álvaro Bizarro, uma espécie de ministro das Finanças da Igreja, reuniram-se então para chegar a um consenso: a entidade beneficiária seria a Cáritas Diocesana de Lisboa, que agora se encontra no centro da polémica.

A segunda questão suscitada pela testamenteira Zulmira Lino Silva e pelos seus advogados tem a ver com a própria acção da Cáritas no combate à pobreza. Depois de uma análise às contas da instituição, elaboraram um parecer em que detectaram indícios de irregularidades e consideraram que a Cáritas de Lisboa engana o público por receber donativos que não canaliza, na totalidade, para a ajuda aos pobres. Esse parecer foi enviado a bispos e outras autoridades eclesiásticas.

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